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Chico Buarque,
o nosso poeta do cotidiano, é que deveria ser o apresentador
de Suzana Herculano-Houzel e seu livro sobre a neurociência
do cotidiano. Sim, porque ambos reconhecem o que todos nós
temos, não dizemos a ninguém mas morremos de curiosidade
de saber por quê.
Foi Chico
que nos chamou a atenção: "Procurando bem /
Todo mundo tem pereba / Marca de bexiga ou vacina / E tem piriri,
tem lombriga, tem ameba. Todo mundo tem remela / Quando acorda
às seis da matina. / Teve escarlatina ou tem febre amarela/(...)
Medo de subir, gente / Medo de cair, gente / Medo de vertigem
/ Quem não tem".
Suzana faz
algo parecido. Chama a nossa atenção para o gago
da família, coitado, fala tão esquisito. E para
o canhoto, por que será que faz tudo ao contrário?
Para as cócegas que sentimos quando alguém cutuca
o nosso sovaco, que coisa estranha, um sentido que faz rir? E
o bocejo? Alguém começa, todo mundo sai atrás
imitando sem querer. Os sonhos bons, os sonhos ruins - esquecemos
muitos, lembramos de alguns marcantes, para que será que
servem? Suzana faz isso e algo mais: acrescenta o que de mais
recente se sabe sobre cada um desses temas, à luz da mais
contemporânea pesquisa científica.
O livro que
vocês têm em mãos é entretenimento certo
e divulgação científica da melhor qualidade.
Suzana Herculano-Houzel é uma neurocientista (já
já comento o que é isso) de sólida formação.
Iniciou sua vida científica como bióloga, depois
se interessou pelo sistema nervoso e foi fazer pós-graduação
nos Estados Unidos (Mestrado) e na Europa (Doutorado), onde passou
vários anos antes de voltar para o Brasil e descobrir-se
escritora, dessas de escrita fácil, leve e clara. Aí,
escreveu sobre História da Neurociência, fez uma
pesquisa de opinião sobre o que as pessoas sabem sobre
o Sistema Nervoso, inventou e realizou exposições
no Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de
Janeiro, e acabou criando um site na Internet que esclarece essas
coisas interessantes e misteriosas da vida cotidiana, ligadas
ao funcionamento do Sistema Nervoso. O site fez tanto sucesso
que deu neste livro.
E inaugurou
uma prática de divulgação científica
que ainda vai dar o que falar. Você não precisa ouvir
uma aula chata e interminável sobre o tronco encefálico
para conhecer os mecanismos cerebrais do ato reflexo de bocejar.
Também não precisa ficar horas diante do dicionário
ou da enciclopédia procurando o melhor verbete que lhe
dê alguma informação sobre a lateralidade
cerebral dos indivíduos canhotos. Menos ainda é
necessário ler as obras de Freud (quem consegue ir até
o fim?) e depois ficar com aquele sentimento de frustração
de que sua ignorância sobre os mecanismos cerebrais do sono
e dos sonhos... aumentou!
O Cérebro
Nosso de Cada Dia vai fazê-lo ler sem conseguir parar, e
esclarecer muitos desses fatos e fenômenos do cotidiano
à luz dos últimos avanços da neurociência.
Neurociência é a moderna disciplina científica
formada no final do século 20 pela confluência de
várias disciplinas ditas básicas - a anatomia, a
histologia, a bioquímica, a biologia molecular - com outras
tantas disciplinas ditas profissionais (ou "clínicas")
- a neurologia, a neuropatologia, a psicologia, a psiquiatria.
A essas se juntaram ainda a inteligência artificial, a informática
robótica, vários ramos da matemática e da
física. Os cientistas que trabalhavam em cada uma dessas
disciplinas, utilizando seus métodos e abordagens para
compreender o Sistema Nervoso, descobriram que melhor fariam se
se reunissem em congressos unificados, trabalhassem em projetos
multidisciplinares, publicassem em revistas comuns e recebessem
estudantes de diferentes formações. Os novos profissionais
que se formaram com essa visão ampla e diversa são
os neurocientistas. O resultado desse movimento foi uma explosão
impensável do conhecimento científico sobre o Cérebro
e suas operações, que ocorreu nos últimos
anos e ainda está em curso.
Suzana Herculano-Houzel
é uma neurocientista que se formou profissionalmente bem
no auge dessa revolução. E ao decidir dedicar-se
à divulgação científica, puxando da
experiência cotidiana de todos nós os temas deste
livro, inaugurou uma nova abordagem para a divulgação
científica.
Para os leitores,
o melhor dos mundos. Cada tema é abordado com base em artigos
científicos publicados nos últimos anos por neurocientistas
do melhor padrão, em revistas de rigorosos critérios
de qualidade. A combinação é perfeita: leitura
agradável, credibilidade e exatidão científicas,
esclarecimento de questões intrigantes, surpresa de encontrar
explicações para mistérios antes considerados
insolúveis, conhecimento de como os neurocientistas trabalham,
humor e leveza.
É ler
e gostar, na certa.
Novembro de
2001
Roberto
Lent
Professor titular do Departamento de Anatomia
do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ
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