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O livro reúne 43 artigos do cientista político Renato Lessa, escritos ao longo dos últimos 13 anos. Os ensaios, fundamentados na filosofia política, fornecem ao leitor brasileiro sólida análise dos diferentes atores e cenários da política brasileira da última década. O leitor encontrará “textos de conjuntura” (relacionados aos governos Collor, Itamar Franco, FHC e Lula); de “reforma política” (uma permanência no debate político do país); de “ representação política” e de características do “processo eleitoral”, além de alguns ensaios sobre o tema “brutalidade policial” e outros de caráter histórico. Há ainda um ensaio que trata das relações entre intelectuais e política. O livro vai da crise final do governo Collor (1992) à crise atual do governo Lula (2006), mas o próprio autor ressalta que entre essas duas crises “vários futuros possíveis foram gestados no país e muitas expectativas foram feitas, desfeitas e refeitas”.
RENATO LESSA é professor titular de teoria política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/IUPERJ e da Universidade Federal Fluminense/UFF. Após a conclusão do doutorado em Ciência Política, realizou pesquisas de pós- doutorado na The American University/EUA (1994), na Universidade de Lisboa/Portugal (2004) e na École des Hautes Études en Sciences Sociales/França (2005). Foi diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro/FAPERJ, e, atualmente, é diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje. Seus principais interesses intelectuais situam-se na área da filosofia política, mais especificamente nas relações entre ceticismo e teoria política, nos estudos sobre o Holocausto e no tema da representação política.
Apresentação
Por Flávio Pinheiro
“Clareza é indício de probidade intelectual”. Tome-se o certificado expedido por Agripino Grieco e o mínimo a dizer é que Renato Lessa é probo. O que não é pouco, mas está longe de ser tudo. De fato, nos artigos que escreve para a imprensa não se percebe em Renato a encadernação de acadêmico. O texto, com o benigno “travo cético machadiano” e leve tempero lusitano, não é exatamente coloquial mas tem fluência e vale-se do variado repertório vocabular da língua oficial do país: o português. Raramente engasga em jargões, nem tropeça em categorizações tão ao gosto do politiquês, que a universidade e a prática política engendram e jornais e revistas tratam de propagar. Verticalização – ai de nós – é a última aberração deste léxico.
Estilo, porém, precisa servir a idéias. E também neste território Renato exibe originalidade. Em seu ramo de atividade são raros os devotos de David Hume, e de sua crença na política como uma ciência da natureza humana. Dito assim, parece óbvio. Não é. Nos últimos anos a ciência política entregou-se ao feitiço dos números e passou a acreditar demais em sua imprecisa exatidão. A melhor das descobertas de Renato, que perpassa vários artigos deste precioso livro, é como a política descolou da vida, do cotidiano. Este fosso existe em toda parte, mas aqui é mais escuro e ajuda a desandar nossa precária coesão social. Renato ilumina o abismo mostrando porque representantes, em geral, representam a si próprios. Ou ainda como o Brasil convenientemente confina a política às relações entre o governo e o Congresso, intoxicando-a de promiscuidade. O melhor corolário para esta linha de raciocínio é o achado que dá título ao livro – o de que presidentes da República são animadores que tentam transpor este fosso conversando direto com o povão. Isso costuma ser bom para script de musical, tipo Evita, mas é mau enredo de Nação.
Felizmente para quem o lê na imprensa, Renato Lessa pulou a cerca da Academia para ser protagonista do debate político. Entre amigos, chama tudo o que escreve de alarvidades – entenda-se à moda da Terrinha, ignorâncias. Não acredite.
SUMÁRIO
Introdução
Nota técnica:
Um breve guia para a leitura
1 - O “experimento Collor”: comentário a uma aventura cleptocrática
2 - Reflexões sobre uma patologia política
3 - Reforma institucional e democracia: em defesa do presidencialismo e da proporcionalidade
4 - Notas sobre o desperdício e sua ubiqüidade: uma perspectiva da ciência política
5 - Reserva de mercado para anões
6 - Os anões e os metafísicos
7 - A ingovernabilidade do governo
8 - Resultados ordinários, prescrições extraordinárias
9 - A representação mínima
10 - A teoria da representação mínima
11 - Da política dogmática, ou as reformas em primeiro lugar
12 - Quatro perguntas realistas sobre a reforma do sistema eleitoral
13 - A sombra da representação
14 - O “läger” de Diadema
15 - Dos casos isolados
16 - Reforma política: entre o fato e o limite
17 - O tempo, as reformas e a plasticidade das instituições
18 - Os éticos e a platéia
19 - Informação, pesquisa e democracia
20 - Maicon da Silva, 45 anos, mulato e evangélico: Presidente da República
21 - O fator Bornhausen
22 - Dos intelectuais, da política e da contemplação: uma pequena peça sobre a inevitabilidade do envolvimento e da frustração
23 - Brasil, 2000: A última eleição do milênio
24 - Memória de um carnaval com ACM, ou singularidades do Brasil oligárquico
25 - Visões do Senado, 1860 e 2001: um diálogo com Machado de Assis
26 - Pedro Malan e a pesquisa que deu errado
27 - A política brasileira à luz do apagão: um breve ensaio sobre o ocaso do iluminismo tucano
28 - O governo Lula: invenção ou adaptação?
29 - Duas ou três coisas que eu sei sobre ela: notas sobre o republicídio de 1964
30 - Ainda os legados de Getúlio Vargas
31 - Como animar uma República?
32 - A teologia da irresponsabilidade pública
33 - O mundo autárquico das relações entre governo e Congresso: uma entrevista
34 - Uma peça de cognição política
35 - O presidencialismo de animação: uma entrevista
36 - E agora Lula?
37 - O choro dos espirituais
38 - O Brasil e o paradigma das avós
39 - Representação
40 - Para que serve a representação: as formas da distinção
41 - Da incivilidade e da fraude na política: quando a substância é a honra
42 - Não adianta: somos horizontais
43 - Muita acusação, pouca elucidação
Índice remissivo
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