“Admirável, este é o termo, admirável este Martu”.
Moacyr Félix
Martu – primeiro nome da Palestina de que se tem registro na história – é um poema longo, que nessa nova edição – revista e ampliada – é narrado por um poeta que teoriza o próprio fazer poético, além de dar a conhecer seus próprios poemas: aqueles que já haviam sido escritos seguindo o projeto inicial – relacionados à Terra palestina e ao seu povo (1ª edição). Segundo Moacyr Félix, que assina a apresentação da primeira edição, “Martu merece e deve ser dado aos jovens vitimados pela ‘poluição cultural’, a que se referia Drummond, porque é exemplo de uma consciência de que a poesia não é um arroto ou um grito (infantil), e sim o fruto de uma existência trabalhada dentro de sentimentos longamente vividos e pensados”. O livro foi vencedor do Prêmio Rio de Literatura-86 e publicado, em 1987, pela Fundação Rio/Philobiblion.
Mas nesses quase 20 anos, Elizabeth não deixou de se emocionar e refletir sobre a Terra palestina e seu povo. E, nesse meio tempo, sobretudo quando escrevia sua tese de doutorado sobre o processo criativo de um autor em busca de seu romance (Guimarães Rosa e Grande sertão, veredas), começou a escrever outro livro de poemas sobre a própria criação poética. “Tal livro seria, pois, a transposição para a linguagem poética de questões teóricas que me tomavam, então, o pensamento”, diz a autora na apresentação desta nova edição. Assim, os dois livros, aparentemente diversos, se fundiram transformando-se em um único volume editado agora pela vieira & lent. A apresentação desta edição é feita por Marco Lucchesi: “Elizabeth Hazin realiza uma poesia sofisticada e límpida. Tem o sentido da medida e não perde com isso a temperatura exigida pelo verso”.
ELIZABETH HAZIN, hoje professora da UnB, é pernambucana. Fez o curso de Letras e o mestrado na UFPE e o doutorado na USP, em 1991, com tese sobre Guimarães Rosa. A especialização em Literatura Inglesa foi feita na Universidade de Londres e o pós-doutorado na Universidade de Roma. Como professora, esteve ainda nas Universidades Federais de Pernambuco e da Bahia e na Universidade de Aarhus, Dinamarca. Escreve desde menina, mas estreou em 1974, com o livro Poesias. Autora de livros premiados: Verso e reverso (Menção Honrosa no Prêmio Fernando Chinaglia); Casa de vidro (Prêmio Jorge de Lima); Areal (2o lugar no Prêmio Jorge de Lima). Publicou ainda: Arco-íris (poemas para crianças), Espelho meu e O arqueiro e a lua. Sua poesia foi incluída em diversas antologias e em periódicos nacionais e estrangeiros. Em 1993, representou o Brasil no Festival Internacional de Poesia, em Copenhagen, na Dinamarca, ao lado de José Paulo Paes, Sebastião Uchoa Leite e Haroldo de Campos.
VIDA, POESIA E MORTE: MARTU
Moacyr Félix
Rio de Janeiro, 1987.
Há pouco reli a entrevista em que Drummond, ao falar da “cada vez mais notória” poluição cultural em nosso país, explicava que ela “consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados” e expressos numa “linguagem cada vez mais abastardada e reduzida a padrões mínimos de racionalidade”. É só olhar em torno e constatar o quanto essa enxurrada de improvisações grotescas rotuladas de poesia escorre num tumulto de decadências que está longe dos atos de colher, selecionar e tecer – através dos trabalhos de um pensamento culturalmente equipado – os valores e as significações capazes de levar-nos a um “sentimento do mundo” e a um “claro enigma” capazes, por sua vez, de nos transformares em tempo humano hospedado numa percepção poética gerada pela autenticidade criadora das formações do poema.
Por isso repica dentro da gente uma satisfação estética e moral enorme a medida que vamos atravessando as realezas da arte poética com que Elizabeth Hazin construiu este longo e belo poema. O mesmo tendo acontecido, acrescente-se desde já, com a leitura de outro livro que também acabou sendo premiado pela comissão julgadora do concurso da Fundação RIO e cujo título é Alkymya de Assustos, um borbulhante e talentoso escachoar de inventividades e inovações formais e temáticas.
Admirável, este é o termo, admirável, este Martu, que é exatamente o primeiro nome - Terra do Ocidente – que os assírios deram às regiões habitadas pelo povo da Palestina, a quem, aliás, o poema é dedicado. Como bordado em seda, várias vezes sutil e tênue, porém sempre impregnado daqueles toques do imperceptível e do mistério, do que os conceitos não conseguem abarcar, o poema vai se desdobrando página após página, numa estruturação contínua de adequações do pensar e do sentir que não permitem tropeçado ou caído no banal e no fácil, no déjà vu da cópia e do panfleto ou das brincadeiras exclusivamente formais.
Como se fossem a coluna vertebral e os ossos desse ternamente vibrante corpo de palavras os textos em maiúsculas, conscientemente bem colocados, são os que desenham e sustentam com nitidez e firmeza os traços daquela pátria de que o poeta se sente exilado e sabe imersa em areia, sonho, tristeza, canto, beleza, dor, guerra e destruição; pátria que é como a flor em cujas pétalas a voz do poeta é o vento, pátria em que o poeta clama para que seja longa a vida dos seus mortos, que é “esse grito aceso/na própria chama/em que se consome o sonho/de retornar”. Em torno desses textos, no entanto, sangue e pulsação do infinito na totalidade humana de que são partes, e compondo não só a maior parte do poema como extrapolando de muito sua ciscunstancialidade histórica, o que se vê é um esteticamente bem realizado perguntar pelo que é a poesia e o poema, a palavra e o silêncio, a vida e seus avessos, o tempo humano e o irreal, tudo se configurando numa filosófica viagem de indagações piscando luzes na sombra das sombras do que não sabemos dentro da noite das coisas e dos seres, tudo girando em torno das três palavras chaves – poeta, palavra e morte – que constantemente aparecem e reaparecem nos atos de abrir para nós a porta das horas aprofundadamente reveladas pela questionante poética de Elizabeth Hazin.
Todo ele andando dentro de uma linguagem estética diversa daquela em que há vários anos me busco como poeta, este Martu merece e deve ser dado aos jovens vitimados pela “poluição cultural”, a que se referira o Drummond, porque é exemplo de uma consciência de que a poesia não é um arroto ou um grito (infantil), e sim o fruto de uma existência trabalhada dentro de sentimentos longamente vividos e pensados.
[Voltar]
|