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Tribuna do Norte entrevista Sidarta Ribeiro sobre o livro "Limiar"

Publicada em 03 de de 2015


Jornal Tribuna do Norte
Fonte da matéria: http://tribunadonorte.com.br/noticia/reflexa-es-entre-cia-ncia-e-literatura/323436

Publicação: 2015-09-03

Reflexões entre ciência e literatura
Yuno Silva
Repórter


Linguagem clara, escrita fina e o desprendimento de um cientista de laboratório atento à questões culturais. Em “Lumiar: uma década entre o cérebro e a mente”, o neurocientista Sidarta Ribeiro exercita sua verve literária e desmistifica temas considerados difíceis para pessoas menos afeitas a abordagens e conceitos que orbitam em torno da Ciência. Através de contos, crônicas e provocações, Ribeiro tece uma colcha de ideias com argumentos convincentes e sem excessos que convidam o leitor a pensar em assuntos díspares como sonho, maconha, capoeira, Educação, Brasil passado e futuro.

“Limiar” (Editora Vieira & Lent, 256 páginas, R$ 39) foi apresentado no início de julho durante a Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, no Rio de Janeiro, com grande interesse por parte do público. Tanto que a obra terminou como a terceira mais vendida do evento.
                                                                                                                               Divulgação

Sidarta Ribeiro lança em Natal seu novo livro “Limiar”, onde reflete sobre o mundo
contemporâneo e trata de temas que vão da capoeira às drogas


Professor universitário com pós-Doutorado e um dos cabeças do Instituto do Cérebro da UFRN, Sidarta lança “Limiar” esta quinta-feira (3) em Natal, às 19h, na Livraria Saraiva do Midway Mall. O título reforça a máxima de que Ciência é Cultura, e que ao incorporar esse conceito no cotidiano é possível entender melhor o mundo em volta.

Os textos, publicados ao longo da última década na revista Mente e Cérebro e nos jornais O Estado e Folha de São Paulo, tratam desde achados da ciência a interpretações para a realidade do país. O autor agrupou seus escritos em dez eixos temáticos: Sono e sonhos; A ciência; Passado e futuro; A Educação; O Brasil; Do neurônio ao infinito; A capoeira; O ser humano; As drogas; e Vida e morte.

A compilação estabelece uma espécie de ponte entre vários mundos, tendo a neurociência como pano de fundo. Mas a “conversa” vai além e alcança temas como pesquisa científica, política, sociedade, passando por história, bioquímica, ícones da cultura, desejos. Confira entrevista:

Sidarta, seu livro ficou entre os mais vendidos durante a Festa Literária Internacional de Paraty (RJ) – FLIP. Esse resultado te surpreendeu?
Sim, pois a decisão de selecionar os textos e publicar o livro pela editora Vieira & Lent foi tomada menos de dois meses antes da Flip. O livro ficou pronto alguns dias antes do evento e por isso tivemos pouca divulgação. Mesmo assim a resposta do público foi muito positiva, sinalizando que os assuntos discutidos são preocupações instigantes e vivas.

A atração das pessoas por descobertas científicas e a adoção de uma linguagem simples pode explicar esse resultado?
Acho que sim. A ciência pode e deve ser discutida por todos, sendo crucial para isso encontrar uma base comum de entendimento. Para atrair o público leigo, é preciso usar técnicas narrativas da literatura e do jornalismo sem comprometer o rigor factual. É um ponto de equilíbrio a ser buscado.

O fato da Ciência ser tratada com naturalidade, e ainda com um viés cultural, potencializa esse interesse?
Sim. As pessoas são ávidas por conhecimento científico, desde que a ciência se apresente sem excesso de jargões, sem pompa, sem certezas absolutas, de cara lavada e aberta ao diálogo.

Qual o perfil do público alvo de "Limiar"?
Pessoas que gostam de ler, que apreciam ciência, literatura, política, ecologia e a cultura brasileira.

Como chegou à seleção final dos 96 textos?
Aproveitei boa parte dos textos que publiquei na revista Mente e Cérebro e em jornais ao longo de uma década. Deixei de fora o que se encontrava datado, preso a um momento muito específico e sem relevância atual. Para chegar a seleção final, parti de um universo de cerca de 130 textos.

Chegou a burilar os textos para torná-los mais acessíveis?
Sim, todos os textos foram revistos e atualizados quando necessário, em face de descobertas científicas mais recentes.

O livro está dividido em dez eixos temáticos, e um deles é "A Capoeira". Quais os pontos de contato da capoeira com a ciência e sua pesquisa?
Capoeira e ciência compartilham vários elementos. Ambas são apoiadas na disciplina com alegria. Ambas são conjunção de teoria e prática, ambas valorizam os Mestres, ambas lidam com o real, o concreto, o empírico. Mestre Pastinha dizia que a capoeira é tudo que a boca come. Ciência também.

Afinal, quando a ciência é tida como Cultura no sentido mais básico da palavra?
A ciência é cultura humana, filha da filosofia e neta da religião. Enquanto seu crescimento e especialização a tornam cada vez mais poderosa, a reduzida educação científica da população tende a mistificá-la, afastando as pessoas de uma compreensão racional do cotidiano. O desafio é comunicar ao público leigo, não como uma série de verdades reveladas e inquestionáveis, mas como parte da epopeia cultural humana, a progressão tateante em busca de verdades provisórias mas cada vez mais sólidas.

E quando a ciência não é Cultura?
Quando se isola e fala apenas para si, o cientista se enfraquece. Por outro lado, quando o público abdica de entender as descobertas científicas para apenas aceitá-las, perde o que a ciência oferece de mais precioso: pensar com a própria cabeça.

Você pesquisa o sono e os sonhos, e afirma que sonhar acordado é uma constante. Existe contraindicações para esses devaneios oníricos em estado de alerta?

Nossa capacidade cotidiana de planejar o futuro com base no passado, exercida a todo instante como imaginação, tem semelhança com o estado de sonho. Mas uma imaginação que não sabe que é imaginação se torna perigosa, como por exemplo na psicose, em que o sonho parece invadir a vigília.

Outro eixo do livro é As Drogas. A liberação da maconha para fins recreativos é questão de tempo? Que tempo é esse?
Pouco tempo, talvez meses, não mais do que alguns anos. Em quase todo o mundo ocidental cresce o movimento para abolir a guerra às drogas. Entre as drogas ilícitas a maconha é uma das mais benignas, com inúmeras aplicações médicas, baixo risco e grande potencial recreativo. A utilização da maconha para aumentar a criatividade é milenarmente conhecida pelos artistas, mas só recentemente começamos a entender as bases neurobiológicas desse efeito.

E haveria como viabilizar a liberação de algumas drogas ilícitas (como a maconha) e manter a proibição de outras (como o crack)?
Sim, claro. Mas acredito que isso seria um erro, pois manteria a vigência da droga mais pesada de todas, que é a proibição, com tudo que acarreta de mercado negro e violência. O essencial é informar as pessoas dos riscos associados ao uso de cada substância. Precisamos de soluções mais inteligentes e humanas; de uma nova política de drogas que não criminalize usuários, que permita o auto-cultivo da maconha contra o narcotráfico, que humanize a questão das drogas em lugar de transformá-la num bicho de sete cabeças.

Quem
Sidarta Ribeiro nasceu em Brasília, em 1971. Neurocientista, professor e diretor do Instituto do Cérebro na UFRN, foi secretário da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento. É autor de uma vasta bibliografia acadêmica e publicou vários livros, entre eles Entendendo as coisas (L&PM, 1998).

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