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PASSAPORTE PARA O FUTURO
Afonso Arinos de Melo Franco
Um ensaísta da República
Berenice Cavalcante

ISBN 8588782367
LITERATURA
14 x 21 | 144 p;

R$ 29,00

PASSAPORTE PARA O FUTURO
Afonso Arinos de Melo Franco
Um ensaísta da República
Berenice Cavalcante

Afonso Arinos de Melo Franco foi um dos mais destacados intelectuais e políticos brasileiros do século XX. Neste livro, vencedor do Prêmio da Academia Brasileira de Letras, concedido por ocasião do primeiro centenário do nascimento de Arinos, Berenice Cavalcante trata, sobretudo, da dimensão subjetiva da produção intelectual de Arinos. Em estudo “minucioso, erudito e inteligente”, baseia sua análise do humanista Arinos principalmente nos escritos biográficos, memórias, crônicas e relatos de viagem. Descobre um Arinos “cultivador de uma tradição cultural de rara presença na elite intelectual” e revela o que chama de “molde clássico em uma postura moderna”. A autora defende que o “que torna singular a reflexão de Arinos é que a valorização dos padrões clássicos se faz em plena sintonia com as indagações e dilemas postos em sua época”. Para Berenice, ao reler os clássicos, Arinos “atualiza o legado do passado, o que lhe confere status de um pesador moderno.” “A fascinação [de Arinos] pelos clássicos gregos e romanos, recuperados pelos pensadores da Renascença, transformou-se em amor pelo passado, um amor que nada tinha de passadista ou saudosista, antes constituía uma sólida plataforma de onde se projetar para o futuro” (JMC). É nesse sentido que Berenice interpreta e apresenta Arinos como “um pensador moderno de molde clássico.” O livro, editado em parceria com a ABL, reproduz nos anexos o parecer da banca examinadora e os documentos da cerimônia de premiação: as saudações do Acadêmico Lêdo Ivo e da professora Berenice Cavalcante. Orelha de José Murilo de Carvalho e apresentação de Ricardo Benzaquen de Araújo.

AO LEITOR


Assim como todos os caminhos levam a Roma, os três percursos que o leitor irá trilhar convergem para uma única interpretação, aquela capaz de abrigar em si os valores éticos, morais e estéticos que singularizam os escritos literários e o estilo de Arinos: o molde clássico de sua postura moderna.
A opção em privilegiar este enfoque funda-se na constatação de que a adesão de Arinos ao ideário da tradição clássica, já perceptível em seus primeiros textos publicados na década de 1930, se manteve constante até Amor a Roma, de 1982. Sobre Arinos, certamente, há ainda muito que dizer, tendo em vista o volume da obra e a diversidade temática que a compõe, que se oferece aos estudiosos com um rico repertório de questões no campo da história, da literatura e da política. Assim, conhecer as múltiplas facetas deste “poliedro humano”, como o designou o amigo Nava, apresenta-se, hoje, como um desafio para novas interpretações.
Contudo, este percurso que concentra o olhar em uma forma de retratar Arinos revela não apenas um dos traços mais relevantes de sua poética e de seu estilo de conduta; é aquele que o distingue como cultivador de uma tradição cultural de rara presença em nossa elite intelectual.
Ressalte-se, ainda, que o que torna singular a reflexão de Arinos é que a valorização dos padrões clássicos se faz em plena sintonia com as indagações e dilemas postos em sua época. Portanto, nele, a valorização do passado não foi uma alternativa para escapar da esfera das contingências, ou refúgio nostálgico onde se abrigam aqueles que fogem de seu tempo. Arinos, ao reler os clássicos, atualiza o legado do passado, o que lhe confere status de um pensador moderno.
Em Arinos, o privilégio do mundo do espírito, a adesão à arte literária como expressão de uma peculiar concepção de verdade e da aposta nas potencialidades da persuasão da eloqüência retórica, marcas indeléveis da tradição clássica, não atendiam apenas à satisfação de um gosto pessoal, fruto da educação em um meio familiar no qual os poetas brotavam aos montes, como ele nos faz lembrar. Foi, antes, uma opção existencial que não o confinou no mundo da contemplação, é a expressão de seu envolvimento na vida ativa.
Nos três caminhos aqui traçados pratico uma espécie de errância própria da escrita ensaísta que seguirá através de crônicas, memórias, biografias e relatos de viagem com os quais o leitor poderá se aproximar do humanista. Ao largo do percurso, restará talvez algum mistério, a irresolução própria ao que é insondável ou inacessível à alma humana, que tanto atraía Arinos, e pelo qual me deixei enredar.


Berenice Cavalcante

Apresentação [José Murilo de Carvalho]

      Em Passaporte para o futuro, Berenice Cavalcante nos leva em fascinante viagem ao também fascinante mundo intelectual, político, ético e estético de Afonso Arinos de Melo Franco. Com grande sensibilidade e originalidade, ela segue um roteiro que refaz outros percursos, os que o próprio Afonso Arinos empreendeu e registrou em sua vasta obra, sobretudo em memórias, biografias, crônicas e relatos de viagem.
Seu ponto de partida é que Afonso Arinos foi profundamente marcado por viagens. A primeira delas, ele a fazia em torno das estantes de sua própria biblioteca, situada no casarão da Rua Dona Mariana em Botafogo. Vocacionado para as letras, passeava entre seus livros visitando autores clássicos e modernos. Mas a viagem decisiva foi a que o levou à Europa na década de 1920, quando o filólogo Séchaye lhe revelou o mundo dos estudos clássicos e renascentistas. A fascinação pelos clássicos gregos e romanos, recuperados pelos pensadores da Renascença, transformou-se em amor pelo passado, um amor que nada tinha de passadista ou saudosista, antes constituía uma sólida plataforma de onde se projetar para o futuro.
O amor aos clássicos corporificou-se em uma cidade e foi declarado no livro Amor a Roma. Pedro Nava disse dele que voltara da Europa transformado em um latino. Mas 45 anos antes de escrever Amor a Roma, adverte Berenice Cavalcante, ele registrara outro amor no Roteiro Lírico de Ouro Preto. À cidade de Cícero, ele agregava a terra dos poetas e sonhadores da Inconfidência. Nas ruas tortuosas e no casario colonial de Vila Rica pulsava o passado mineiro, um passado grávido do valor permanente da liberdade.
Viajando pelos livros, percorrendo as ruas de Roma e Ouro Preto, Afonso Arinos empreendia ao mesmo tempo uma viagem para dentro de si mesmo em busca da harmonia entre tradição e modernidade, local e universal, ético e estético, ação e contemplação. Pela sutileza, novidade e excelência da análise, Passaporte para o futuro fez pleno jus ao prêmio que lhe foi conferido pela Academia Brasileira de Letras.


José Murilo de Carvalho
Membro da Academia Brasileira de Ciências
e da Academia Brasileira de Letras


 

Berenice Cavalcante é Bacharel em História pela Faculdade Nacional de Filosofia (UFRJ); Doutora em História Social pela USP; Professora da PUC-Rio; Pesquisadora CNPq; Professora Visitante nas Universidades de Toulouse, Coimbra e Roma La Sapienza; Bolsista da Biblioteca Nacional de Lisboa e da Fundação para o Desenvolvimento dos Povos de Língua Portuguesa. Atua nas Áreas de História das Idéias e História da Cultura. Publicações: Razão e Sensibilidade – José Bonifácio, uma História em Três Tempos (Ed. FGV), A Revolução Francesa e a Modernidade Ocidental (Ed. Contexto), como organizadora: História e Literatura: Machado de Assis (Ed. Tempo Brasileiro), Modernas Tradições: Percursos da Cultura Ocidental, Séculos XV-XVII (Ed. Access/Faperj) e co-organizadora: Decantando a República – Inventário Histórico e Político da Canção Popular Moderna Brasileira (Ed. Nova Fronteira/Perseu Abramo/Faperj). Gosta de cozinhar e de inventar estórias “de faz de conta” para seus netos.

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